O RPG e a Aula: Parte 1

Amigo/a leitor/a no universo do RPG na Educação é comum o surgimento de debates de senso comum sobre como o RPG é melhor do que uma aula expositiva. Pretendo aqui falar um pouco sobre isso, sem a intensão de desqualificar o trabalho de professores que não RPGistas, mas com o posicionamento de contribuição sobre o debate como uma introdução ao RPG e Educação

Primeiro vamos conceituar jogo de uma forma bem simples para orientar este texto. Segundo Huizinga (2004) podemos determinar como jogo toda atividade voluntária, acontecendo em um determinado tempo e espaço definidos, com regras especificas conhecidas e aceitas por todos.

Ao pensar em alguns elementos que compõe o funcionamento de uma aula e um RPG, por suas similaridades, a atenção e o interesse são pontos comuns, para que ocorra a experiência de jogo e de aula. Atenção é relacionada a foco ou concentração mental, enquanto interesse tem relação com a importância emocional.

Assim, é necessário envolvimento mental e emocional para que ambos ocorram de maneira funcional, para isso devem ocorrer em ambos os hemisférios cerebrais, que segundo EDWARDS (2000) descreve o hemisfério direito (não verbal, sintético, irracional, emocional e atemporal) e esquerdo (verbal, analítico temporal, racional e lógico).

Durante a aula o estimulo do hemisfério esquerdo(racional) é mais rotineiro pois esta ligado a descriminar informações por meio de raciocínio lógica. Enquanto durante o RPG surgem características de ambos os hemisférios como aspectos emocionais de alegria ao medo, formulação de hipóteses, abstrações e raciocínio lógico.

A aula e o RPG também podem conter também esse par de elementos (atenção e interesse) pelo princípio do prazer de Freud, onde a o ID (desejos e vontades) busca o desejo de satisfação imediata e evita o desprazer repudiando determinada situação considerada desagradável. Ou seja, a consciência é sensível e composta da percepção sobre o prazer e o desprazer:

… a consciência, que tem para nós o sentido de um órgão sensorial para a apreensão de qualidades psíquicas, é excitável, no estado de vigília, a partir de dois lugares. A partir da periferia do aparelho global, do sistema da percepção, em primeira linha; e em seguida, a partir das excitações de prazer e desprazer… Mas… a consciência… tornou-se também um órgão sensorial para uma parte de nossos processos do pensamento. Há… duas superfícies sensoriais, uma do perceber, a outra voltada para os processos de pensamento pré-conscientes. (Freud, 1900/1982, cap. 7, D, p. 547)

Mas o princípio do prazer não existe sozinho, se contrapondo existe o princípio da realidade, que é a mediação dos desejos internos pelo EGO (mediador do mundo externo), que busca encontrar um prazer moderado após avaliar riscos, ganhos, vantagens, desvantagens e requisitos do desejo pelo prazer, ajustando-o para tornar-se socialmente aceitável.

Voltando ao RPG e a aula, quando o professor ensina algo por meio de uma metodologia especifica de maneira que não existe prazer na atividade, logo a consciência busca fugir daquela situação de desprazer, não prestando atenção, fazendo bagunça, afirmando que não quer ter aquela experiência.

Pensando em crianças de 9 a 10 anos (PIAGET,1970), nem sempre tem total clareza, sobre a noção de mediação da realidade, dando ainda mais atenção a prazeres imediatos do que questões a longo prazo por isso, é comum que até mesmo durante o RPG quando o turno não é da criança, ela dispersa (experiência própria).

O professor tende a representar princípio de realidade, para o aluno que as vezes não tem isso claro, não faz sentido, ocorrendo assim mais dispersão. O aluno pode até compreender punição como um desprazer, e logo vai querer fugir da atividade.

Mas o RPG como um estimulo de prazer é instantâneo e “o que se chama felicidade no sentido mais estrito resulta da satisfação bastante súbita de necessidades fortemente postas em êxtase e, por sua natureza, é possível somente como um fenômeno episódico” (FREUD, 1933).

É possível deduzir que, o princípio de realidade representado pelo externo, na figura do narrador ou professor media o princípio do prazer na participação dos alunos ou jogadores para o desenvolvimento do RPG ou aula. Desta forma, um bom RPG na escola lida com a mediação ponderada de estímulos.

(aguardem a próxima parte)


Por: Rafael Rocha

Rafael.correia.rocha@gmail.com



Referências 

EDWARDS, Betty; RAPOSO, Roberto. Desenhando com o lado direito do cérebro. Ediouro, 2000.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens (1938). 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004.

PIAGET, J. A construção do real na criança. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. 360p.

Freud, S. (1933). New introductory lectures on psychoanalysis. New York: Norton. (Translated by W. J. H. Sprott).

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